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Afinal, que diabos é dekassegui?

23/01/2010

O discurso de que o movimento dekasegui vai acabar submerge com grande força depois que a crise assolou as condições de vida e trabalho dos brasileiros no Japão. Nunca foi novidade. Já na origem da palavra que nomeia milhares de estrangeiros nikkeys aparece explicitada a curta permanência daqueles que vivem no Japão.

Dekasegui nasce da aglutinação de deru (sair) e kasegu (trabalhar para ganhar dinheiro). Em sentido literário, dekasegui significa “trabalhando distante de casa”, ou ainda “trabalho temporário longe de casa”. Em tradução ao pé da letra, sair para ganhar dinheiro trabalhando. A palavra designa os milhares de nikkeys (descendentes de japoneses) que deixaram (saíram) de sua terra natal e atualmente trabalham no Japão. Na própria origem do termo, percebe-se que o Japão nunca será o nosso lar. Se um dia eu saí de casa, certamente deverei retornar. O Japão será um lugar temporário que serve de suporte para economizar algum dinheiro, mas não para criar raízes ou constituir família. Podemos ver que, já na origem do termo, as idéias de fugacidade e transitoriedade emergem como imagens congeladas na cultura “dekasseguesa”.

No entanto, se nos ativermos apenas em seu sentido original, seremos omissivos aos milhares de jovens e crianças que não possuem idade para arranjar algum emprego ou bico. De acordo com a legislação japonesa, são proibidos de exercer quaisquer tipos de atividade remunerada. Dos 265 mil brasileiros (dados de 2000), cerca de 10% são jovens. O termo dekasegui não se aplica a eles. Deveria ser revisto ou ampliado o seu significado. Tal constituição de famílias denota uma importante mudança da comunidade: deixamos de ser trabalhadores temporários para aqui residir permanentemente.

Deste modo, não é de se espantar que o governo japonês catalise esse processo de retorno para casa. Àqueles que estão desempregados, é oferecida uma ajuda de 300 mil ienes para que possam custear a passagem de volta e ainda poder se garantir por um tempo em terras brasileiras. Se o trabalhador tiver filhos em idade escolar, será oferecida a quantia de 200 mil ienes para cada filho. O que fere o nosso orgulho e nos deixa revoltados é a exigência: não deveremos retornar. Realmente parece brincadeira, mas ao aceitarmos tal ajuda de custo, aceitaremos também a condição de nunca mais voltarmos para o Japão. De tão criticada, inclusive pelo New York Times, tal medida foi modificada – o prazo para um futuro retorno agora é de 3 anos.

Muitos argumentam que o governo, em atitude um tanto xenófoba, busca expulsar todos os que são estrangeiros, em foco os brasileiros. Não consigo questionar essa afirmação, no entanto tal aversão por estrangeiros já fora demonstrada anteriormente. Para prevenir-se contra terroristas, todos os estrangeiros, ao aportarem no Japão, deverão submeter-se à coleta de impressões digitais. Além disso, os brasileiros são acusados constantemente de preguiçosos no trato com a língua japonesa. Como não queremos aprender a língua japonesa, não queremos nos integrar. “Ora, por que não expulsar os dekaseguis, já que não querem se integrar?” – pensam.

O movimento dekasegui vai acabar? Ainda tenho algumas dúvidas sobre o assunto. Contudo, podemos observar um esforço demasiado por parte do governo japonês para levar ao pé da letra, o sentido original de dekasegui, trabalhador temporário. E os brasileiros, o que estamos fazendo?

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One Comment leave one →
  1. Caio permalink
    23/01/2010 14:37

    E aí Cunita! Tá legal o blog!
    E a crise no Japão como está? Podia escrever um post sobre isso, o que mudou na vida de vocês depois da crise.
    Falou!

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