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O que mudou depois da crise?

04/02/2010

Interpréte do Hello Work de Hamamatsu fala para os brasileiros sobre a ajuda do retorno foto: Franck Robichon/NYT, mais fotos no slide show do NYT

O universo dos dekasseguis certamente sofreu profundas transformações depois que a crise chegou. Amigos despedindo-se, pessoas perdendo empregos e desesperadas por um novo, ações de caridade e gente pedindo esmola são algumas cenas rotineiras que teimam em se repetir no Japão. No entanto, se adentrarmos no subsolo e acurarmos o nosso olhar, nada de novo realmente ocorreu- muitos já esperavam que isso fosse acontecer.

A crise, em seu modo, fez com que aflorassem alguns extremos na comunidade. Destapou as feridas que passaram a se multiplicar mas também permitiu que pululassem os remédios, as formas de prevenção e repensássemos as causas de tais males. Vimos que não somos tão bem recebidos aqui no Japão. Numa primeira oportunidade, os brasileiros (ou nipo-brasileiros) foram despedidos de seus empregos. O que nos espanta e talvez revolte, é o fato de que japoneses e até chineses continuarem em seus empregos, numa atitude veladamente discriminatória por parte das empresas. No melhor estilo “o emprego é nosso! , vemos o quanto o nosso trabalho fora visto como incerto e até desnecessário. Alguns chineses continuam em seus postos dado que seus salários são infinitamente inferiores ao nosso. Enquanto ganhamos cerca de 1000 ienes/hora (10 dólares) os chineses ganham apenas um. Algumas montadoras mudaram-se para a China, onde o trabalho é ainda mais barato. A crise mostrou as caras (ou ao menos deveria ter mostrado) de uma sociedade que não se preocupa com a semi-escravidão por que passam tais estrangeiros.

Devido a essas inúmeras demissões, alguns brasileiros organizaram uma passeata em meados de 2009, em Nagoya e Tokyo, para mostrar publicamente a nossa insatisfação. Muitos brasileiros foram contra. Alegaram que não era hora de darmos a cara a tapas, “por que não se prepararam economizando algum dinheiro para situações como essa?” – argumentam. Dizem ainda que a cultura não aceitaria qualquer tipo de passeata. Outros mencionam que somos simplesmente ingratos com um país que nos recebeu de portas abertas e café na sala.  No entanto, quando perguntamos o que deveria ser feito contra a massa de demissões, o silêncio irrompe e mortalmente paira entre os interlocutores. Ora, generalizações tão pouco estruturadas como essas chegam a ser inverdades. Muitos não conseguiram economizar simplesmente porque não tinham condições para isso! Gratidão é um sentimento que deveria vir da sociedade japonesa que realmente necessitava de mão-de-obra barata e sem qualificação. Sempre fizemos as horas extras como nos eram pedidas e fizemos os serviços mais pesados e sujos que alguns nipônicos não aceitavam.

Acredito que japoneses não possuem a mesma experiência que os brasileiros na busca pelos direitos trabalhistas e realmente não estão acostumados com isso. A licença maternidade, que no Brasil é de seis meses e existe há vários anos, foi conquistada somente no ano passado (três meses é o máximo).  Não há décimo-terceiro para brasileiros (para japoneses existe o bônus que seria o “sétimo-salário”, ganha-se dois ao ano conforme o lucro da empresa) muito menos férias remuneradas, dado que recebemos por horas. Nem se pode pensar em descanso semanal obrigatório. Ainda existem casos em que empreiteiras seguram o passaporte de seu empregado para evitar que fujam sem quitar a dívida da passagem (cerca de 30 mil dólares). Fomos explorados, vemos a exploração dos outros e simplesmente não fazemos nada.

A crise deveria ter unido os semelhantes. Deveríamos ter criado elos mais fortes com outras comunidades de estrangeiros como a dos chineses e a dos filipinos. Mas, infelizmente tratamos de virar as caras, vendo-os como possíveis rivais. E o pior, os nipo-brasileiros saímos ainda mais divididos e enfraquecidos – a união da comunidade está longe de acontecer e talvez nunca aconteça realmente.

PS: esse post deveria ter sido sobre os pontos bons da ajuda do governo, mas o negativismo dominou, sorry… mas ele ainda virá…

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9 Comentários leave one →
  1. Caio permalink
    16/02/2010 11:58

    Interessante você falar que o Brasil tem mais tradição de luta trabalhista que o Japão. Não tinha me dado conta disso. Pena que essa tradição não esteja presente entre os brasileiros que estão no Japão. Será que isso não se deve, em parte, ao grupo social a que esses brasileiros pertencem (pertenciam) no Brasil, a classe média? Afinal, a classe média brasileira não tem muita simpatia pelas leis trabalhistas: muitos tem medo de levarem processo das suas empregadas, além de temerem movimentos sociais.
    Até mais.

    • 17/02/2010 20:12

      Caio, legal ter você por aqui. Mó saudade, velho!

      Não acredito que seja por isso,Caio. Nem todos os nipo-brasileiros eram da classe média. No Brasil, em linhas gerais, a comunidade nikkey é conservadora independente da camada social.
      Quase não se observa participação dos nikkeyjin em movimentos políticos de qualquer natureza: sindical, gay, feminista. Eu mesmo, nunca ouvi falar, com exceção do livro Memórias de um anarquista japonês.

      Abração!!

      • Caio permalink
        20/02/2010 21:39

        Pode crer… É muito mais um aspecto cultural mesmo.
        Abraço!

  2. Mari permalink
    16/02/2010 12:32

    Nossa, Cunita, que legal poder ler o seu relato. Muito interessante ver o que está acontecendo aí, as uniões e desuniões… Nãoacredito que não tinha nem licença materidade no Japão!!! Como as pessoas faziam?
    Beijos, saudades, e continue esrevendo!
    Mari.
    ps- só hoje descobri seu bolg!

    • 17/02/2010 20:55

      Que saudade Mari! Poxa, queria estar aí!
      No Japão, existe um auxílio para mães solteiras que não têm condições de se bancarem. Recebem cerca de 300 mil ienes (30 mil dólares), o suficiente para pagar a conta do hospital.
      Não recebiam nada a mais…
      Abração

  3. Renata permalink
    23/02/2010 17:46

    Pois é, Marcelo, e se for mesmo a última geração de dekasseguis, essa almejada união não deve acontecer mesmo!

    Que blog legal!

    Abraço

  4. talyta andressa permalink
    29/03/2010 12:35

    eita sor.. essa crise é loka mesmo… 😀
    suas postagens sao interesantes… bem formuladas. love (L)
    ZIPERRRRRRRR 🙂

  5. 08/04/2010 03:16

    Realmente,a crise foi um coco mesmo,muitos dos meus amigos da minha antiga escola foram embora,meus pais quase se ferraram e perdem o emprego.eles nao me falaram isso nem nada,mas deu pra perceber.
    Crise fdp

  6. Marcia permalink
    17/06/2010 03:35

    Resumindo: brasileiros são tratados como escravos no japão? Adorei o blog. bjus

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