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Pichação

22/03/2010

Sinceramente, estou com o estômago torcido, “socado”, “esmurrado”. Sinto-me assim depois de assistir ao trailer do documentário Pixo de João Weiner que acabou de entrar em cartaz. Realmente é impossível ser indiferente quando o assunto é a pichação. Quem nunca se sentiu ao menos desconfortável ao se deparar com inúmeros edifícios, casas e paredes tomados pela pichação?  Quando jovens arriscam a vida e a liberdade para “somente” rabiscar os muros, concomitantemente abrem nossas feridas e nos fazem lembrar, de modo trágico, daquilo que teimamos em nos acostumar: as feridas  profundas de uma sociedade marcada pela indiferença, preconceito e mesquinhez de caráter.

Quando perguntada se pichação é arte, Caroline Sustos não se contém: “pode não ser para se tornar legal, mas é uma arte, uma arte marginalizada. Arte da pobreza que expõe um sentimento que ninguém quer ver, que todo mundo fecha os olhos, ninguém quer prestar atenção.” Caroline ficou conhecida por pichar a Bienal Internacional em 2008 juntamente com mais 40 colegas, e ficar detida por isso. “Eu picho por dois motivos: pela parada do protesto, de agredir a sociedade, agredir os burgueses, de causar o transtorno neles mesmo!; e pela fama do bagulho, ser conhecida”.

“Pichação em São Paulo é uma comunicação fechada: é da pichação para a pichação. Ela não se comunica com a sociedade, é uma agressão. Feita para agredir a sociedade” – comenta o fotógrafo Choque. Produto da indiferença e do individualismo, os muros pichados clamam por algum tipo de reação: seja a raiva, seja a compreensão. Descontrolam-se aqueles que se sentem prejudicados, aqueles que tiveram seus muros pichados. A parede mal rebocada, utilizada justamente para criar uma barreira com a “gentalha exterior”, torna-se mais importante que a vida do pretenso jovem que picha. A pichação é resultado da indiferença de uma elite que não se importa com a vida dos menos favorecidos, em que muitos preferem vê-los mortos que incomodando, depredando, pichando.

Tais jovens, que não foram vistos como pessoas, pedem através da arte, que sejam reconhecidos. A sociedade virou-lhes a cara, mas seus companheiros de pichação o acodem. “Que sociedade é essa que forma uma geração inteira que precisa se expressar por meio da destruição?” – indaga o fotógrafo Choque. Não somente jovens, mas toda uma camada social foi brutalmente ignorada por décadas e séculos de nossa história. Tratados meramente como subalternos, não passam de objetos sem vida, propriedade daqueles que pagam salário. Mas os jovens possuem a energia e a disposição de se arriscar. Conseguem facilmente conviver em grupos e desafiar aqueles que estão no poder. A vida de trabalhador honesto durante o dia possui uma faceta oculta que causa temor nos mais abastados: na surdina ele agride, fere e libera toda a tensão acumulada. Mesmo dizendo que se importam com sua vida e liberdade, arriscam-nas para pichar, deixando ali a sua assinatura.

É mais do que necessário uma total reconstituição de valores que pautam a nossa vida em sociedade. Não basta somente punir aqueles que depredaram o espaço público e privado. A prisão pura e simples de pichadores não irá resolver a questão. Acredito que se de uma só vez todos fossem presos, e as paredes repintadas, imediatamente pululariam novos grupos de pichação e novos desenhos surgiriam. O Estado, que em teoria deveria ser o responsável por zelar pela vida, garantindo trabalho, educação, saúde, moradia e alimentação, torna-se um terrível algoz que pune sumariamente tais “transgressores”. A repressão não funciona. Respeito ao próximo, solidariedade e compaixão devem nortear as ações para acabar com o problema da indiferença. No entanto, quem deveria dar o pontapé inicial são os políticos, demonstrando que não são indiferentes aos problemas das grandes metrópoles e das pessoas que nela habitam. Se nada disso der resultado, sejamos nós que, ao termos compaixão pela vida alheia, não sejamos omissos nem negligentes.

Referência

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u475414.shtml

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2 Comentários leave one →
  1. talyta andressa permalink
    29/03/2010 12:32

    ai professor eu fico loca da vida com esse negócio de pichação einh…
    é e distruição do patrimônio público… 🙂
    rsrsrs
    agora vou comentar em todos também… kkk 😉

  2. 22/10/2010 20:56

    Gostei muito do blog e de sua opinião. Achei interessante visitar um professor brasileiro no Japão. Se puder, visite meu blog. aliás, recomendarei seu texto por lá.
    Um abraço.

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