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O gueto brasileiro no Japão

30/06/2011

 

A comunidade brasileira no Japão é um gueto. Não como aquele de Cracóvia em que judeus eram mantidos à força em uma cidade encastelada. Mas um gueto cultural, em que o contato com nativos, e até mesmo com outros estrangeiros, é pouco frequente, ou até inexistente para algumas pessoas. A barreira da língua é implacável e dificilmente será transposta em pouco tempo.

Nós, dekasseguis, relacionamo-nos com japoneses somente em ambiente de trabalho, isto quando intérpretes e tradutores não fazem a intermediação da conversa.  Fazemos compras nos mesmos supermercados, nos divertimos nos mesmo lugares. Restaurantes  e lojas de produtos brasileiros fatalmente possuem, em sua maioria, clientes brasileiros. Revistas, jornais e redes de televisão específicas para uma população de cerca de 230 mil pessoas. Muitas escolas brasileiras e, quanto ao currículo, diferenciam-se muito pouco das escolas no Brasil – temos livros de chamada, material didático apostilado. Até o uniforme é muito parecido! Imaginem ensinar História e Geografia do Brasil para uma criança que não consegue nem imaginar o que seja zona rural. Somado a tudo isto, quando surge alguma dificuldade, contamos com vários intérpretes, sejam eles amigos ou profissionais (pagos por hora), que nos ajudam com serviços jurídicos, hospitalares ou quaisquer outros.

O exemplo da imigração japonesa no Brasil ensina-nos que essa situação não mudará tão cedo. Até hoje, vemos que o processo de integração (assimilação ou aculturação como preferem alguns) ainda não acontecera plenamente, diferente de outros grupos de imigrantes como italianos ou espanhóis, vistos como legítimos representantes do que é ser brasileiro. Não vou entrar no mérito da questão de se discutir isso aqui. O que eu quero dizer é que muitos isseis (a primeira geração, os imigrantes pioneiros), e até mesmo os yonseis (bisnetos dos pioneiros, a quarta geração) não são vistos como brasileiros, apesar de bastante inseridos no contexto social brasileiro. Se os brasileiros de olhos puxados ainda não conseguiram ser vistos como brasileiros em mais de 100 anos de história, como podem os dekasseguis fazer isso em pouco mais de 20?

Cerca de 3 anos atrás, participei de uma reunião com o chefe do departamento de assuntos estrangeiros da província de Gifu e fiquei realmente preocupado. Foi dito ali que muitos brasileiros realmente não estudam o idioma japonês, dado facilmente verificável quando se conversa com qualquer dekassegui. Eis que tal chefe, quase que exasperando, disse que se os brasileiros não querem aprender o japonês, é melhor que vão embora, pois, a longo prazo só trariam mais dificuldades para o país. Argumentei que a questão não era essa, pois como se pode estudar o idioma trabalhando mais de 12 horas por dia e com turnos alternados? Comentei que muitos isseis no Brasil, tiveram uma dificuldade imensa em aprender o idioma português, e que até hoje muitos não sabem. E por último disse que aqueles que não desejam retornar em pouco tempo ao Brasil, ou os que estão no Japão há mais de 10 anos, fazem sim um esforço imenso para conciliar estudo e trabalho, e hoje muitos são admiravelmente fluentes. Era uma conversa banal, nada importante, com representantes de várias organizações, como hospitais, agências de emprego, e eu, fui como professor de escola brasileira. Mas digo que é difícil conversar com caras que têm poder, e são inexoravelmente ignorantes e insensíveis à realidade dos estrangeiros.

Somos um gueto, não por vontade própria, mas por necessidade. Apesar de realmente acreditar que não somos unidos quando precisamos reivindicar, clamar por ajuda ou justiça, tenho a convicção de que a comunidade se ajuda quando necessário. Assim como alguns animais que, em ambientes hostis, vivem em grupos para se protegerem , nós também, de algum modo, nos protegemos.  O problema está quando competimos entre nós para ver quem fica com a mixaria, com as sobras, mas esse é assunto para outro post. Até lá!

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2 Comentários leave one →
  1. 30/06/2011 20:44

    O que eu não entendo, Marcelo, é que o mesmo povo que não tem tempo de estudar japonês, passa horas na academia. Acho que estudar ou não japonês é uma opção de cada um. Mas, inventar uma desculpa generalizada é uma outra história. Conheço casos de gente que, nas mesmas 12 horas de fábrica, estudou japonês. Aliás, os chineses que estão ocupando os lugares dos brasileiros, o fazem. É preciso deixar que cada um fale por si.

    • 30/06/2011 21:36

      Verdade, não se pode romantizar os brasileiros que vivem por aqui, tampouco esperar que aprendam o idioma em curto tempo.
      Valeu pelo comentário!

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