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Meu preconceito contra maconheiros

21/11/2011

 

Sérgio Buarque de Holanda, autor de Raízes de Brasil e pai de Chico Buarque (aposto que na verdade o limita e não o explica), fumava maconha. Carl Sagan, Oliver Sacks, Stephen Jay Gould também gostavam de fumar, e ainda tragavam! Mas, qual a relevância dessa informação? Para que serve saber se esses caras gostavam de puxar um fumo ou não? Na verdade nenhuma!

“Esses caras” escreveram livros que nenhum de nós, em nossa etapa mais sapiente e sóbria de nossas vidas, jamais sonharemos em escrever. Poderíamos falar, com alguma inveja, que eles roubaram as nossas ideias. Mas escrever de modo tão relevante como fizeram é quase impossível.

Se você, leitor,está pasmo, ou apenas surpreso com essa informação, agora entende como me sinto quando entrei para a Unicamp, a melhor faculdade de História do país. Eu, de cidade pequena, metido a ler, estudar, um nerd japa (ou japa nerd, tanto faz) do tipo tradicional (mas que gostava de cervejinha), indignado com pessoas que fumavam maconha e eram infinitamente mais inteligentes, cultos e legais que eu. Alguns (não todos!) fumavam inclusive todos os dias, mas, a meu despeito, liam muito mais, conheciam mais música, teatro e filmes do que eu. Outros, mestrandos e doutorandos, fumavam social ou diariamente, comiam bolo e brigadeiro “enmaconhados” e escreveram dissertações e teses lindas, que tive o prazer de ler e reconhecer o quão talentosos realmente eram.

Sérgio Buarque não fora um importante historiador, talvez o maior dentre os historiadores brasileiros, porque fumava maconha. Também desconheço a frequência com que usava. Mas, seus “embasados”, como costumava chamar os cigarrinhos, não enobreceram nem empobreceram seu trabalho. Não querem dizer simplesmente nada! Qualquer um pode tentar fumar maconha com autonomia ou não, e não será por causa disso que sairá escrevendo um novo clássico do pensamento brasileiro.  Não faço apologia às drogas e nunca incentivarei o seu uso – não é porque tal pessoa fuma maconha que se tornará um eminente pensador ou escritor. Mas gostaria de ver alguém da laia de Geraldo Alckmin, ou simplesmente haters semi-alfabetizados da internet, recomendando a Sérgio Buarque que o uso da maconha é prejudicial à saúde ou tachando-o de anti-democrata. Seria hilário, cômico e trágico.

Há também inúmeros outros autores que não fumavam – eram caretas (palavra detestável!) – mas que igualmente foram importantes para a história do pensamento brasileiro. Talvez essa seja a maioria, digo talvez. Gostaria de citar Gilberto Freyre e Caio Prado Jr., intelectuais do calibre de Sérgio, mas não tenho certeza se eles davam um tapa ou não, pois careço de informações. Certamente vocês poderiam citar às dezenas pessoas inteligentes que não fumam nem fumaram.

Fumar maconha não é sinal de que a pessoa seja mal-caráter, playboy ou mesmo anti-democrata. Três estudantes da USP foram presos porque foram flagrados consumindo a droga. Desde quando o consumo de entorpecentes voltou a ser crime no Brasil? Não existe um preconceito embutido nesse fato? Não estamos fazendo tempestade num copo d’água? O que significa o ato de um universitário, ou intelectual ou qualquer pessoa que seja, de fumar maconha. O que isso significa? Nada, simplesmente nada!

 

Para os haters de plantão, diga-se de passagem que não estou questionando o caso Usp, nem a legalização das drogas, nem a violência relacionada ao tráfico.

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