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Rafinha Bastos não vale as “vadias” que “come”

01/07/2011

 

Depois de inúmeras críticas ao Rafinha Bastos, eu mesmo fui dar uma olhada nos seus tweets, para ver o quão babaca realmente era o pretenso comediante. Dele conhecia somente suas enfadonhas participações em Improváveis e sua declaração machista e insensível sobre amamamentação (o vídeo idiota está aqui!). Não foi necessário gastar muito tempo para topar com esse lamentável comentário.

Em primeiro lugar, as mulheres e homens que participaram da Marcha da Vadias não têm como principal reivindicação a liberdade de expressão. Isso é para Bolsonaros da vida que confundem esse direito, conquistado a duras penas, com espalhar preconceitos e atacar a dignididade de algumas minorias. Inclusive a Marcha da Maconha não tinha como bandeira a liberdade de expressão. Buscavam, em primeiro lugar, retomar o debate da descriminalização das drogas, que, infelizmente, alguns formadores de opinião recusam-se a participar.

A liberdade de expressão é apenas o meio que essas “vadias” utilizaram para chamar a atenção, clamar por reflexão e mudanças, exigir o fim de um preconceito já naturalizado em nosso cotidiano. A ideia de se organizar tal movimento não é brasileira, mas chegou aqui com força total. Recomendando cautela para evitar estupros, um policial de Toronto no Canadá sugere que as mulheres parem de usar roupas de vadias. Tal comentário, tão banal e correto para muita gente (preconceituosa, por sinal!), é o estopim para manifestações que tiveram réplicas em todo o mundo.

Coisas que causam o estupro:

(   ) bebida

(   ) andar só

(   ) roupa sexy

( X ) estuprador

Pois é, este é um cartaz da Marcha da Vadias e nos faz refletir sobre a postura idiota de muitos “machos” – a culpa do estupro é da própria mulher! “‘Nós, homens, que não conseguimos controlar o nosso próprio corpo, vontades e ações, podemos tomar à força o corpo da mulher, e transar quantas vezes desejar. A culpa é dela, se ela saiu com minissaia, blusinha ou está usando decote, é porque quer sexo, não estamos fazendo nada além do que satisfazendo a vontade da “vadia”. Puta quer mesmo é f.der, caso contrário sairia com roupas decentes, seria uma mãe de família recatada e não beberia! Tá andando sozinha?! É porque quer trepar!”’ Não é assim que pensam muitos supostos machos?! Quem nunca ouviu esse tipo de comentário?! Sinto-me envergonhado, mas eu mesmo já perdi a conta das inúmeras vezes que escutei algumas dessas filhadaputice (desculpem o preconceito embutido nessa palavra, mas não consegui achar palavrão melhor para caracterizar esse tipo de homem idiota!).

Essas mulheres exigem apenas o óbvio, mas nem isso parece ser direito delas. “Meu corpo, minha escolha”, diz um dos cartazes. Não seria óbvio acreditar que a mulher tem o direito (ou seria dever?) de escolher com quem iria transar? Segundo algumas estatísticas, 10 mulheres são estupradas por dia no Rio de Janeiro. Esse número seria ainda maior se incluíssemos as tentativas de estupro ou aquelas que não tiveram coragem de dar queixa na polícia. O pior é que alguns estupros são ainda cometidos no seio do lar, pelo pai, irmão ou tios e dificilmente essa criança tem consciência ou coragem suficiente para denunciar o familiar. “Meu corpo não é público” afirma outro cartaz. Putz, tenho vontade de chorar quando nós homens nem isso conseguimos compreender. Vergonhoso!

Alguns poderiam argumentar sobre o porquê de usar termo tão “chulo” para caracterizar tal reivindicação, que realmente é nobre, mas que não exige nada além do mínimo, do óbvio, do natural. Vamos refletir sobre esse caso sob a luz do movimento negro. Existem termos politicamente corretos como afro-descendente ou afro-brasileiro. Mas essas palavras bonitinhas simplesmente não refletem o conflito e tensão pela qual passa o negro, o crioulo, ou o mulato em seu dia-a-dia. O próprio MNU (Movimento Negro Unificado) usa NEGRO. NEGRO!!!! O dia 20 de novembro é da consciência negra, e não da consciência afro-descendente.  Palavras politicamente corretas são bonitinhas, mas disfarçam o preconceito. Usar o termo “vadia”, além de ironizar com o pensamento do policial canadense, mas que não é só dele, e sim de muitos homens por aí, afirma uma identidade cunhada nessa relação conflitante. Como se dissessem, “mesmo que seja ou não vadia, vocês, homens, não têm o direito de me estuprar!”

Não estou dizendo que Rafinha Bastos seja um estuprador, não é isso. Uma piada nada engraçada, típica de um comediante sem talentos, é mais uma prova de que o preconceito ainda é grande e que uma mudança de mentalidade está longe de acontecer. “Apóio a marcha das vadias. Eu mesmo já comi várias.” Se elas deram para você, é porque tiveram vontade, elas não fizeram nada além do que elas queriam. Mas, se foi contra a vontade delas, você deveria ser preso, pois “comer” alguém que não quer ser comido, é crime, mas certamente usar decote não é!

 

 

Quer saber o nível de piadas desse comediante? Leia a piada abaixo e tire as próprias conclusões:

“Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho. Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade. Homem que fez isso não merece cadeia, merece um abraço”

 

Leia mais no blog Escreva Lola Escreva de Lola Aronovitch

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O gueto brasileiro no Japão

30/06/2011

 

A comunidade brasileira no Japão é um gueto. Não como aquele de Cracóvia em que judeus eram mantidos à força em uma cidade encastelada. Mas um gueto cultural, em que o contato com nativos, e até mesmo com outros estrangeiros, é pouco frequente, ou até inexistente para algumas pessoas. A barreira da língua é implacável e dificilmente será transposta em pouco tempo.

Nós, dekasseguis, relacionamo-nos com japoneses somente em ambiente de trabalho, isto quando intérpretes e tradutores não fazem a intermediação da conversa.  Fazemos compras nos mesmos supermercados, nos divertimos nos mesmo lugares. Restaurantes  e lojas de produtos brasileiros fatalmente possuem, em sua maioria, clientes brasileiros. Revistas, jornais e redes de televisão específicas para uma população de cerca de 230 mil pessoas. Muitas escolas brasileiras e, quanto ao currículo, diferenciam-se muito pouco das escolas no Brasil – temos livros de chamada, material didático apostilado. Até o uniforme é muito parecido! Imaginem ensinar História e Geografia do Brasil para uma criança que não consegue nem imaginar o que seja zona rural. Somado a tudo isto, quando surge alguma dificuldade, contamos com vários intérpretes, sejam eles amigos ou profissionais (pagos por hora), que nos ajudam com serviços jurídicos, hospitalares ou quaisquer outros.

O exemplo da imigração japonesa no Brasil ensina-nos que essa situação não mudará tão cedo. Até hoje, vemos que o processo de integração (assimilação ou aculturação como preferem alguns) ainda não acontecera plenamente, diferente de outros grupos de imigrantes como italianos ou espanhóis, vistos como legítimos representantes do que é ser brasileiro. Não vou entrar no mérito da questão de se discutir isso aqui. O que eu quero dizer é que muitos isseis (a primeira geração, os imigrantes pioneiros), e até mesmo os yonseis (bisnetos dos pioneiros, a quarta geração) não são vistos como brasileiros, apesar de bastante inseridos no contexto social brasileiro. Se os brasileiros de olhos puxados ainda não conseguiram ser vistos como brasileiros em mais de 100 anos de história, como podem os dekasseguis fazer isso em pouco mais de 20?

Cerca de 3 anos atrás, participei de uma reunião com o chefe do departamento de assuntos estrangeiros da província de Gifu e fiquei realmente preocupado. Foi dito ali que muitos brasileiros realmente não estudam o idioma japonês, dado facilmente verificável quando se conversa com qualquer dekassegui. Eis que tal chefe, quase que exasperando, disse que se os brasileiros não querem aprender o japonês, é melhor que vão embora, pois, a longo prazo só trariam mais dificuldades para o país. Argumentei que a questão não era essa, pois como se pode estudar o idioma trabalhando mais de 12 horas por dia e com turnos alternados? Comentei que muitos isseis no Brasil, tiveram uma dificuldade imensa em aprender o idioma português, e que até hoje muitos não sabem. E por último disse que aqueles que não desejam retornar em pouco tempo ao Brasil, ou os que estão no Japão há mais de 10 anos, fazem sim um esforço imenso para conciliar estudo e trabalho, e hoje muitos são admiravelmente fluentes. Era uma conversa banal, nada importante, com representantes de várias organizações, como hospitais, agências de emprego, e eu, fui como professor de escola brasileira. Mas digo que é difícil conversar com caras que têm poder, e são inexoravelmente ignorantes e insensíveis à realidade dos estrangeiros.

Somos um gueto, não por vontade própria, mas por necessidade. Apesar de realmente acreditar que não somos unidos quando precisamos reivindicar, clamar por ajuda ou justiça, tenho a convicção de que a comunidade se ajuda quando necessário. Assim como alguns animais que, em ambientes hostis, vivem em grupos para se protegerem , nós também, de algum modo, nos protegemos.  O problema está quando competimos entre nós para ver quem fica com a mixaria, com as sobras, mas esse é assunto para outro post. Até lá!

Esquerda ou Direita? A atualidade de velhos conceitos

30/06/2011

Um violão direito nas mãos do canhoto. Nem sei quem é o louco da imagem, mas achei genial. Afinal, qual o significado para palavra "direita" quando se é canhoto? hehe

Se  tivesse vencido, Serra teria sido um presidente de direita, como foi acusado durante a campanha presidencial? O governo Lula foi de esquerda ou centro-esquerda? Qual o significado desses termos no cenário político atual? Muitos afirmam enfaticamente que tais conceitos não conseguem mais explicar a atual complexidade de nossa sociedade. No entanto, ao mesmo tempo em que vemos a pulverização de antigas ideologias antes consideradas de esquerda como o socialismo, parecem renascer, com novo rosto mas mesma alma, ideias tão discriminatórias que cheiram ao nazi-fascismo dos anos 30 e 40.

Com a difusão da internet, dos blogs, vlogs e twítteres, vivemos também um boom de pessoas que podem expressar livremente sua opinião. A grande imprensa, outrora controladora dos meios de comunicação, cede espaço a zé-ninguéns que, do conforto de seus lares, têm o poder de questionar, contra-argumentar ou simplesmente não aceitar a opinião de “grandes” jornalistas. “Blogs sujos”, expressão cunhada pelo ex-presidenciável José Serra, reflete bem esse comportamento. Período em que a revista Veja, de modo vexatório, atacava a campanha de Dilma Roussef, tais blogs buscaram a verdade factual, mostrar, sem deturpações, o que realmente havia acontecido. Quem não se lembra da bolinha de papel? (Vide post anterior). A atual presidenta, que não enfrenta, ou não consegue enfrentar a grande mídia, busca difundir a banda larga no Brasil, na esperança de que a “liberdade de expressão” seja agora realmente um direito de todos, e claro, também romper com uma época de atraso dos meios de comunicação.

Como todo ambiente próspero e progressita, a atualidade vive também suas contradições. A deturpação surge do fato de que todos podem aparecer e ter seguidores: nazistas, homofóbicos, machistas, elitistas e tantos outros “istas” ganham força. Sob o égide do anonimato (e também da impunidade!) podemos interneticamente expressar nossos preconceitos. Recentemente assisti a um vlog, que não merece divulgação, em que a própria homofobia teria vergonha das burrices ali pronunciadas. Bolsonaro comenta sexualidade na televisão, e eis que quase que automaticamente surgem manifestações contrárias mas também favoráveis na internet. Há quem comente que  seja necessário construir campos de concentração para nordestinos em São Paulo. Os males da terra da garoa adviriam da secura de migrantes nordestinos. Não seriam essas idéias xenófobas?

Não consigo pensar em exemplo maior de xenofobia que o massacre de judeus na Polônia durante a Segunda Guerra. Acusados de usurparem a região da Cracóvia, tais judeus deveriam ser varridos do mapa, purificando-se assim aquela região. Vivemos  um retorno monumental dessas ideias antes temerosas. Há quem diga que nunca saíram de cena… Não sei. Viu-se, durante as eleições, o medo e o horror à pobre. Nordestinos, “todos” pobres “de dinheiro e espírito”, por consequência mal-educados, não polidos, grosseiros, bárbaros, fedidos, etc deveriam ser mortos afogados. É culpa dessa gente que Serra não venceu. Ainda vivemos numa época em que os estereótipos tornam-se a regra, e a regra gera o preconceito. Lamentável.

Como afirmar que os termos direita e esquerda morreram? Sobre a velha esquerda, não ouso afirmar nada. Lula, outrora de discurso socialista, alia-se a Collor e Sarney. Antes disso, visando o poder e mais tempo no horário político, coligara-se com o Partido Liberal. Mas, a direita continua forte, sim, aquela velha direita excludente, assassina, nazi-fascista, está aí, saltando dos twítteres para a mente de nossos jovens e vice-versa. Queria ter o orgulho e a convicção de que o nazismo desaparecera, sumira do mapa com a derrota da Alemanha na Segunda Guerra. A antiga direita, antes representada por partidos políticos na Europa, não precisa mais de representação – basta criar uma conta no twitter e acompanhar alguns teimosos que insistem em ressucitar uma ideia já vencida, dando-lhe novas vestimentas,  e cirurgias plásticas, mas continuando com os mesmos ares excludentes e discriminatórios do passado. A direita continua forte, não como uma agremiação políticas, mas agora difundida pelos meios de comunicação dos quais quais a participação maciça é de jovens. A batalha que antes ocorrera contra grandes partidos, contra o monopólio dos meios de comunicação, agora atinge outro nível, tornando-se quase pessoal. Estamos perdendo essa guerra, o Brasil e o mundo caminhando novamente para uma radicalização, polarização de ideias: a direita e aqueles que não são de direita. Comofas? para reverter essa situação?

Fanatismo no Japão

28/06/2011

Um fenômeno que me chama a atenção no Japão é o crescimento do fanatismo religioso entre os brasileiros. Mesmo endividados, desempregados, sobrevivendo com o seguro desemprego, doam verdadeiras fortunas aos estelionatários da religião. Ouvi falar de casos em que o fiel teria que dizimar (verbo oriundo de dízimo, a contribuição “voluntária” que se faz à igreja) cerca de 270 mil ienes, mais de 3 mil dólares, à igreja como prova de fé.

Sempre fui o tipo de pessoa que defende a liberdade da pessoa escolher o culto que irá seguir. Se ela se sente bem, se a religião lhe conforta e lhe traz paz de espírito, qual o problema? Se a mãe, desesperada, inconsolável com a morte de seu filho, acredita que ele esteja junto de Deus, e se sente bem com isso, qual o problema? Conseguirei desconstruir com algumas simples palavras todo um estilo de vida calcado na crença religiosa? Impossível.

O problema reside no fanatismo, na “doença que é quase incurável”, segundo palavras de Voltaire. É difícil explicar as causas desse extremismo religioso. Poderíamos começar pela crise econômica que ainda não passou por aqui. Crentes (o verbo e não a pessoa) que ofertando o dízimo com fé, receberão tudo em dobro, contraem dívidas, vendem o carro, não pagam a mensalidade da escola dos filhos nem a conta do hospital. E mesmo assim, o tão esperado emprego não chega. Doam mais, pois a fé não fora suficiente. Deixam-se levar pela conversa leviana de muitos falsos pastores, para ficarem “a Deus dará”.

Uma outra explicação poderia advir da extrema carência por que passam os brasileiros aqui no Japão. Trabalhar por longas horas em serviços sujos, pesados e sem prestígio, além de desgastar a pessoa fisicamente, rouba-lhe o tempo para namorar, cultivar amizades ou mesmo se dedicar à família. Com baixa escolaridade, carentes de pessoas que lhe façam bem, buscam companhia naquilo que sobrou, Deus. Sim, em alguns casos somente Deus resta para essas pessoas. Emprego, família, amigos, escolaridade (e por consequência livros e até filmes) não preenchem quaisquer lacunas na vida destes infelizes. Mas Deus, que se encontrava escondido lá no fundo da alma, ressurge com grande imponência, e lhe mostra que o verdadeiro caminho é a fé. Somos gado ovino e precisamos irremediavelmente de alguém que nos pastoreie – não sabemos o verdadeiro caminho e podemos nos afastar. “O Senhor é meu pastor e nada me faltará”. Aquele que se converteu, que finalmente encontrou um caminho seguro por entre os lobos, tem tanta fé naquilo que faz, que busca também converter outras pessoas. É comum vermos em portas de algumas igrejas (sem citar nomes para não me comprometer hehe), como é forte a publicidade boca-a-boca. Entregam-lhe rosas, lembrancinhas de dia das mães, perguntam sobre as dificuldades, tornam-se seus companheiros, nem que seja por um breve instante.

Ao ganhar força, este grupo de fé e irmãos camaradas agora quer impor sua verdade para todos. Implantar uma ditadura de costumes é seu escopo camuflado. Falsos moralistas, “a religião, longe de ser para [eles] um alimento salutar, transforma-se em veneno nos cérebros infeccionados”, dizia Voltaire. Cheguei ao cúmulo de ter que escutar de uma criança que, ao condenar a atitude dos pais, acha errado “dar tudo para igreja e nada para os filhos”. Parece reclamação de criança mimada, mas não é, isso eu posso afirmar! Pais, que retiram os filhos das escolas brasileiras e matriculam-nas em escolas japonesas simplesmente para poderem doar mais e mais às igrejas. Algumas ficam inclusive afastadas das escolas em nome do dízimo. Conversem com essas pessoas sobre homossexualidade, política, evolucionismo, ateísmo para verem a reação – sua pessoa pode até ser citada em culto! “ Esses miseráveis têm incessantemente presente no espírito o exemplo de Aode, que assassina o rei Eglão; de Judite, que corta a cabeça de Holoferne quando deitada com ele; de Samuel, que corta em pedaços o rei Agague. Eles não veem que esses exemplos respeitáveis para a antigüidade são abomináveis na época atual; eles haurem seus furores da mesma religião que os condena.” [Voltaire, Dicionário Filosófico, verbete Fanatismo]

Afinar seu estilo de vida com o espírito filosófico seria a solução para Voltaire. Tenho minhas dúvidas. Como fazer isso? Como conseguir dialogar com pessoas que têm posturas tão radicais, que acreditam que suas vidas mudaram (para melhor) por causa da religião?! A lei parece realmente ser impotente mas pode ser um caminho. Constitui-se crime no Japão o ato da criança de até 15 anos não frequentar escola. Queria ter a coragem e a firmeza de denunciar esses criminosos, mas essa lei não vale para estrangeiros. Se a pessoa quiser dar tudo para a igreja e virar mendigo, o problema não é meu, é problema dela e que arque com as consequências. Mas os filhos não podem pagar por esse ato de estupidez. Sou adepto da ideia de que a educação pode resolver muita coisa, o espírito filosófico pode sim ser um poderoso aliado na luta contra o fanatismo, mas só resolve a médio e longo prazo, e essas crianças precisam de ajuda agora!

A redenção da bolinha de papel

27/06/2011
Aproveitando o post do blog de Paulo Henrique Amorim, não resisti e escrevi o texto abaixo.
Outrora protagonista de incontáveis balbúrdias em sala de aula, símbolo de tédio e insatisfação de alunos bagunceiros, a bolinha de papel ressurge agora como grande heroína em busca da verdade. Com sua ajuda, nunca foi tão fácil desmascarar jornalistas marrons e políticos maquiavélicos. Tais políticos, em sua busca quase shakespereana pelo poder mostram facetas surpreendentes, planos quase que ardilosos que só vieram à tona quando nosso “Hamlet amassado” expõe a podridão do reino da Dinamarca.

Mas essa querida protagonista possui um arqui-inimigo, não um Iago, talvez um atrapalhado Oberon, que visava embrulhar suas conquistas. Trata-se do rolo de fita adesiva ou, como preferirem, o durex. Travando uma épica batalha “a nossa disforme” e sem “forma definida” [definições molinianas], batia e rebatia “quase que com a mesma energia com a qual” se projetava em busca da verdade. Mas o rolo de fita, ou se preferirem o durex, essa ambígua e enrolada personagem, batia de lado, foi ligeiro e atacou furtivamente. Ninguém tê-lo-ia notado não fossem alguns magos da tecnologia atual, que o ajudaram  em sua busca por encobrir a verdade.

O mais estranho é que apesar de serem inimigos, de lutarem em lados opostos, tanto a bolinha quanto o durex usaram suas forças para atacar um mesmo alvo, o mais terrível dos vilões já apresentados – a careca do Padim Cerra. A bolinha,que em hipótese, era mais leve e disforme fizera um estrago enorme logrando fama imediata como heroína que salvou a pátria de um terrível monstro. Diferente sorte tivera o rolo de fita. Brilhante, de formas arredondadas perfeitas,  forte,  e apesar do peso era tão rápido quanto a bolinha,caiu no esquecimento, e quando lembravam dele, as pessoas diziam coisas desconexas, sobre uma aparição miraculosa, tentando ressuscitar um monstro conferindo pancadas em seu lóbulo direito.

Contar a história das aventuras da bolinha de papel é fundamental para o exercício de nossa memória política. Tenho inveja dessa que estragara tantas aulas, que fizera tanta bagunça no passado, mas que tivera um final redentor. Heroína pícara, de coração puro e incompreendido, mas que nos ensinara o caminho do bem, da verdade e dos justos. Mirem-se no exemplo da bolinha de papel!

Acho que faltaram alguns vídeos para complementar o tópico.

Versão do SBT

A mentira da Globo (Molina aparece em 4’38”

Agora um vídeo de internauta desmentindo a farsa

Mais um vídeo para comprovar a fraude

Dois pesos

24/10/2010

Por Maria Rita Khel*

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

*Matéria originalmente publicada no jornal O Estado de S. Paulo e reproduzida do site http://www.cartacapital.com.br

Pichação

22/03/2010

Sinceramente, estou com o estômago torcido, “socado”, “esmurrado”. Sinto-me assim depois de assistir ao trailer do documentário Pixo de João Weiner que acabou de entrar em cartaz. Realmente é impossível ser indiferente quando o assunto é a pichação. Quem nunca se sentiu ao menos desconfortável ao se deparar com inúmeros edifícios, casas e paredes tomados pela pichação?  Quando jovens arriscam a vida e a liberdade para “somente” rabiscar os muros, concomitantemente abrem nossas feridas e nos fazem lembrar, de modo trágico, daquilo que teimamos em nos acostumar: as feridas  profundas de uma sociedade marcada pela indiferença, preconceito e mesquinhez de caráter.

Quando perguntada se pichação é arte, Caroline Sustos não se contém: “pode não ser para se tornar legal, mas é uma arte, uma arte marginalizada. Arte da pobreza que expõe um sentimento que ninguém quer ver, que todo mundo fecha os olhos, ninguém quer prestar atenção.” Caroline ficou conhecida por pichar a Bienal Internacional em 2008 juntamente com mais 40 colegas, e ficar detida por isso. “Eu picho por dois motivos: pela parada do protesto, de agredir a sociedade, agredir os burgueses, de causar o transtorno neles mesmo!; e pela fama do bagulho, ser conhecida”.

“Pichação em São Paulo é uma comunicação fechada: é da pichação para a pichação. Ela não se comunica com a sociedade, é uma agressão. Feita para agredir a sociedade” – comenta o fotógrafo Choque. Produto da indiferença e do individualismo, os muros pichados clamam por algum tipo de reação: seja a raiva, seja a compreensão. Descontrolam-se aqueles que se sentem prejudicados, aqueles que tiveram seus muros pichados. A parede mal rebocada, utilizada justamente para criar uma barreira com a “gentalha exterior”, torna-se mais importante que a vida do pretenso jovem que picha. A pichação é resultado da indiferença de uma elite que não se importa com a vida dos menos favorecidos, em que muitos preferem vê-los mortos que incomodando, depredando, pichando.

Tais jovens, que não foram vistos como pessoas, pedem através da arte, que sejam reconhecidos. A sociedade virou-lhes a cara, mas seus companheiros de pichação o acodem. “Que sociedade é essa que forma uma geração inteira que precisa se expressar por meio da destruição?” – indaga o fotógrafo Choque. Não somente jovens, mas toda uma camada social foi brutalmente ignorada por décadas e séculos de nossa história. Tratados meramente como subalternos, não passam de objetos sem vida, propriedade daqueles que pagam salário. Mas os jovens possuem a energia e a disposição de se arriscar. Conseguem facilmente conviver em grupos e desafiar aqueles que estão no poder. A vida de trabalhador honesto durante o dia possui uma faceta oculta que causa temor nos mais abastados: na surdina ele agride, fere e libera toda a tensão acumulada. Mesmo dizendo que se importam com sua vida e liberdade, arriscam-nas para pichar, deixando ali a sua assinatura.

É mais do que necessário uma total reconstituição de valores que pautam a nossa vida em sociedade. Não basta somente punir aqueles que depredaram o espaço público e privado. A prisão pura e simples de pichadores não irá resolver a questão. Acredito que se de uma só vez todos fossem presos, e as paredes repintadas, imediatamente pululariam novos grupos de pichação e novos desenhos surgiriam. O Estado, que em teoria deveria ser o responsável por zelar pela vida, garantindo trabalho, educação, saúde, moradia e alimentação, torna-se um terrível algoz que pune sumariamente tais “transgressores”. A repressão não funciona. Respeito ao próximo, solidariedade e compaixão devem nortear as ações para acabar com o problema da indiferença. No entanto, quem deveria dar o pontapé inicial são os políticos, demonstrando que não são indiferentes aos problemas das grandes metrópoles e das pessoas que nela habitam. Se nada disso der resultado, sejamos nós que, ao termos compaixão pela vida alheia, não sejamos omissos nem negligentes.

Referência

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u475414.shtml