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Rafinha Bastos não vale as “vadias” que “come”

01/07/2011

 

Depois de inúmeras críticas ao Rafinha Bastos, eu mesmo fui dar uma olhada nos seus tweets, para ver o quão babaca realmente era o pretenso comediante. Dele conhecia somente suas enfadonhas participações em Improváveis e sua declaração machista e insensível sobre amamamentação (o vídeo idiota está aqui!). Não foi necessário gastar muito tempo para topar com esse lamentável comentário.

Em primeiro lugar, as mulheres e homens que participaram da Marcha da Vadias não têm como principal reivindicação a liberdade de expressão. Isso é para Bolsonaros da vida que confundem esse direito, conquistado a duras penas, com espalhar preconceitos e atacar a dignididade de algumas minorias. Inclusive a Marcha da Maconha não tinha como bandeira a liberdade de expressão. Buscavam, em primeiro lugar, retomar o debate da descriminalização das drogas, que, infelizmente, alguns formadores de opinião recusam-se a participar.

A liberdade de expressão é apenas o meio que essas “vadias” utilizaram para chamar a atenção, clamar por reflexão e mudanças, exigir o fim de um preconceito já naturalizado em nosso cotidiano. A ideia de se organizar tal movimento não é brasileira, mas chegou aqui com força total. Recomendando cautela para evitar estupros, um policial de Toronto no Canadá sugere que as mulheres parem de usar roupas de vadias. Tal comentário, tão banal e correto para muita gente (preconceituosa, por sinal!), é o estopim para manifestações que tiveram réplicas em todo o mundo.

Coisas que causam o estupro:

(   ) bebida

(   ) andar só

(   ) roupa sexy

( X ) estuprador

Pois é, este é um cartaz da Marcha da Vadias e nos faz refletir sobre a postura idiota de muitos “machos” – a culpa do estupro é da própria mulher! “‘Nós, homens, que não conseguimos controlar o nosso próprio corpo, vontades e ações, podemos tomar à força o corpo da mulher, e transar quantas vezes desejar. A culpa é dela, se ela saiu com minissaia, blusinha ou está usando decote, é porque quer sexo, não estamos fazendo nada além do que satisfazendo a vontade da “vadia”. Puta quer mesmo é f.der, caso contrário sairia com roupas decentes, seria uma mãe de família recatada e não beberia! Tá andando sozinha?! É porque quer trepar!”’ Não é assim que pensam muitos supostos machos?! Quem nunca ouviu esse tipo de comentário?! Sinto-me envergonhado, mas eu mesmo já perdi a conta das inúmeras vezes que escutei algumas dessas filhadaputice (desculpem o preconceito embutido nessa palavra, mas não consegui achar palavrão melhor para caracterizar esse tipo de homem idiota!).

Essas mulheres exigem apenas o óbvio, mas nem isso parece ser direito delas. “Meu corpo, minha escolha”, diz um dos cartazes. Não seria óbvio acreditar que a mulher tem o direito (ou seria dever?) de escolher com quem iria transar? Segundo algumas estatísticas, 10 mulheres são estupradas por dia no Rio de Janeiro. Esse número seria ainda maior se incluíssemos as tentativas de estupro ou aquelas que não tiveram coragem de dar queixa na polícia. O pior é que alguns estupros são ainda cometidos no seio do lar, pelo pai, irmão ou tios e dificilmente essa criança tem consciência ou coragem suficiente para denunciar o familiar. “Meu corpo não é público” afirma outro cartaz. Putz, tenho vontade de chorar quando nós homens nem isso conseguimos compreender. Vergonhoso!

Alguns poderiam argumentar sobre o porquê de usar termo tão “chulo” para caracterizar tal reivindicação, que realmente é nobre, mas que não exige nada além do mínimo, do óbvio, do natural. Vamos refletir sobre esse caso sob a luz do movimento negro. Existem termos politicamente corretos como afro-descendente ou afro-brasileiro. Mas essas palavras bonitinhas simplesmente não refletem o conflito e tensão pela qual passa o negro, o crioulo, ou o mulato em seu dia-a-dia. O próprio MNU (Movimento Negro Unificado) usa NEGRO. NEGRO!!!! O dia 20 de novembro é da consciência negra, e não da consciência afro-descendente.  Palavras politicamente corretas são bonitinhas, mas disfarçam o preconceito. Usar o termo “vadia”, além de ironizar com o pensamento do policial canadense, mas que não é só dele, e sim de muitos homens por aí, afirma uma identidade cunhada nessa relação conflitante. Como se dissessem, “mesmo que seja ou não vadia, vocês, homens, não têm o direito de me estuprar!”

Não estou dizendo que Rafinha Bastos seja um estuprador, não é isso. Uma piada nada engraçada, típica de um comediante sem talentos, é mais uma prova de que o preconceito ainda é grande e que uma mudança de mentalidade está longe de acontecer. “Apóio a marcha das vadias. Eu mesmo já comi várias.” Se elas deram para você, é porque tiveram vontade, elas não fizeram nada além do que elas queriam. Mas, se foi contra a vontade delas, você deveria ser preso, pois “comer” alguém que não quer ser comido, é crime, mas certamente usar decote não é!

 

 

Quer saber o nível de piadas desse comediante? Leia a piada abaixo e tire as próprias conclusões:

“Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho. Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade. Homem que fez isso não merece cadeia, merece um abraço”

 

Leia mais no blog Escreva Lola Escreva de Lola Aronovitch

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13 Comentários leave one →
  1. FiveFingeredBeast permalink
    22/09/2011 20:54

    ha…pera ai meu amigo. Como que vc aparece e usa termos como “moral“ para se referir a “vadias“?(no começo do artigo). Por favor ne. Vc pode ser a bichinha mais liberalista que exista. Mas querer falar sobre respeitar a moral de pessoas q se quer n conseguem nem se respeitar,por isso o termo `vadia`, para mim, So marcelo Cuzudo e suas ideias fantasiosas de um mundo novo e feliz com homens,mulheres e um terceiro sexo.

    • 23/09/2011 00:08

      FiveFingeredBeast,

      1. Não existe a palavra moral nem no começo, nem no meio, nem no fim do post. Você errou! Leia novamente, mas com um pouco mais de atenção…

      2. Qual a relação entre ser “bichinha liberalista” e criticar um comediante? Não use os seus preconceitos para julgar, analisar ou mesmo testar as pessoas. Você não me conhece, não sabe quem eu sou e mesmo se conhecesse, minha vida particular não te interessa! Não sou gay, e mesmo se fosse não seria assunto seu! Cuide de sua vida e evite emitir opiniões equivocadas e preconceituosas. Limpe sua boca quando for falar de mim!

      3. Quem disse que usar o termo “vadia” é falta de respeito para consigo mesmo?! Como eu percebi que o seu forte não é entendimento de texto, vou copiar e colar uma parte do post:

      palavras politicamente corretas são bonitinhas, mas disfarçam o preconceito. Usar o termo “vadia”, além de ironizar com o pensamento do policial canadense, mas que não é só dele, e sim de muitos homens por aí, afirma uma identidade cunhada nessa relação conflitante. Como se dissessem, “mesmo que seja ou não vadia, vocês, homens, não têm o direito de me estuprar!”

      4. Qual o problema em pensar “um mundo feliz com homens, mulheres e um terceiro sexo”?
      O problema está na felicidade ou nesse suposto “terceiro sexo”? Sinceramente, acredito que não exista um terceiro sexo, a biologia na espécie humana limitou-nos a dois sexos somente. Contudo, quando se fala em cultura, o assunto muda. Pedófilos, castos, assexuados, gays masculinos e femininos, transexuais, heterossexuais. Essas palavras que enquadram, e por consequência, limitam o ser humano, não gosto de utilizá-las! Portanto, vc erra pelo conceito utilizado – nem todos os homens são iguais, nem todas as mulheres são iguais, nem todos desse suposto terceiro sexo são iguais!

      5 – Quem não sabe escrever e argumentar, tem que utilizar palavrões para reforçar o argumento. Vc me chama de “cuzudo” – esse, com certeza, é um ótimo argumento, expôs a ffraqueza de suas ideias e de seus argumentos.

  2. FiveFingeredBeast permalink
    22/09/2011 21:15

    E uma outra coisa. Eu n curto rafinha bastos ou qualquer outro hipocrita que atua como humorista stand-up. N tenho enteresse. Mas ainda assim, entendo que o trabalho dele e humor. Fazer humor com assuntos polemicos, agradando uns e n muito a outros eh mais que natural e vc deveria entender isso. Ele eh um humorista, mais do que natural fazer uma piada como essa. Ora, vc ficou indignado? paciencia, agora, preconceito e algo que existe em tudo e em coisas tao pequenas que em nosso cotidiano nos ate deixamos de perceber.
    Se vc mesmo for levar a serio tudo oq vc diz meu amigo, entao vc se contradiz o tempo pq todos nos temos nossos preconceitos e fazemos nossas piadinhas preconceituosas o tempo todo. Larga de ser viadinho, querer mostrar que eh o rapaizinho do bem e vai trabalhar seu fracote!

    E desculpe a falta de acento. meu teclado eh ingles e justo nessa barra de digitacao, n foi possivel a mudanca de idioma.

  3. 23/09/2011 00:30

    Bom, vou começar pelo final.

    1- Pode deixar que eu desculpo a falta de acento. E desculpo também a sua falta de Enteresse (titio explica, é escrito com I, Interesse) e também o “rapaizinho” que é escrito assim: rapazinho. Ah, esqueci de mencionar que também desculpo o “vai” trabalhar, o correto seria “vá”. Tá desculpado por não saber gramática e ortografia, pois sabe acentuar as palavras, só o seu teclado que não permite…

    2 – O trabalho dele é fazer humor, mas não é imune a críticas. Defendo a liberdade de expressão, portanto, posso criticar! Se ele lida com temas polêmicos, é mais que natural que surjam críticas ao seu trabalho. Você utiliza a palavra “natural” –

    “mais do que natural fazer uma piada como essa”

    Não, não é natural. Preconceito não está escrito em nossos genes, é histórico, social e cuturalmente construído. Os preconceitos na França são iguais aos preconceitos na África? Os preconceitos no Japão, são iguais àqueles que existem no Brasil? Não use a palavra natural como se fosse uma imposição da natureza e nada pudéssemos fazer! Critico sim, tenho direito de criticar e faço quando bem entender! Não me venha dizer o que eu deveria ou não fazer!

    3 – Mesmo que o preconceito esteja generalizado e um tanto enraizado em nossa cultura, não quer dizer que não possamos lutar contra ele. Quando o identificamos dentro de nós mesmos, a luta pode ser ainda mais difícil, mas é claro que não é impossível!

    4 – Qual a relação entre ser “viadinho”, “rapaizinho do bem”, não trabalhar, e ser “fracote”?

    Trabalhadores não criticam?
    Trabalhadores não são “viadinhos”, nem tentam ser “rapaizinhos do bem”?
    Não existem “viadinhos” do mal?
    Será que fracotes não trabalham?
    Todos os “fracotes” são viadinhos?

    Conclusão: não misture suas opiniões preconceituosas com análise de post, mesmo que seja um post ruim com o meu. Não xingue e use argumentos sólidos para embasar o seu ponto de vista. E, por último, acredito que seja válido pensar que um mundo melhor realmente é possível!

  4. priscilafsilva1@gmail.com permalink
    30/09/2011 02:27

    Parabéns pelo texto e pelo blog. Concordo com os pontos que fez. É ótimo ver que há homens que compreendem a situação das mulheres na nossa sociedade.

    • 30/09/2011 17:56

      Cara Priscilia Silva,
      obrigado mesmo por comentar. A opinião de uma mulher neste post é mais que fundamental para que eu possa medir o quanto fui correto ou incorreto nas colocações que fiz.
      A propósito, como tomou conhecimento do blog?

  5. Risa permalink
    03/10/2011 22:37

    Parabéns pela iniciativa, Marcelo. É sempre bom ver homens pensantes, que não se resumem a engolir tudo o que a mídia enfia goela abaixo, que conseguem pensar além do “isso é natural, sou o macho comedor e pronto” e têm coragem de por a cara a tapa e aturar trolls pentelhando.

    Vou seguir seu blog. Abraço!

    • 05/10/2011 19:29

      Obrigado Risa,
      confesso que cheguei a ficar um pouco com medo de “por a cara a tapa”, mas seu comentário e de outras pessoas que me encorajaram me estimularam a continuar escrevendo, mesmo que posts sem graça como o meu.

      Tb vou seguir seu blog, vc parece ser uma pessoa bacana hehehe

      Abração

  6. Internet Girl permalink
    04/10/2011 08:14

    Caro Marcelo Cunita.
    Não ligue para o comentário de um troll imbecil e ignorante como este FiveFingeredBeast.
    O cara é um machista ridículo e possivelmente uma bichona enrustida por questionar tanto a sua sexualidade.
    Um completo idiota sem argumentos.
    QUeria ver se a mãe, irmã, filha, namorada(se um troll desse tem) enfim, fosse discriminada ou sofresse uma violência apenas por ser mulher.
    Parabéns pelo blog.
    É sempre bom ver a opinião de um homem inteligente e avesso a preconceitos.
    Beijão.

    • 05/10/2011 19:32

      Internet Girl,
      obrigado!

      Trolls existem em todo o lugar, mas parece suas presenças são bem atuantes quando se discute direitos civis. Cheguei a cogitar a apagar o comentário dele, mas vai contra os meus princípios. Essa gente pode sim mostrar sua opinião por mais preconceituosa que seja, mas nós temos o dever de rebatê-las, argumentando sempre com razão e lógica.

      Abração

  7. 05/10/2011 04:20

    Entrei nesta página através do link no blog da Lola, e adorei seu texto, inclusive o título, muito bom. Gostaria de deixar uma contribuição, na verdade talvez você tenha usado a palavra só para dialogar com o texto que critica, mas… lá vai: “comer” significa, na linguagem chula, ter relação sexual com alguém (geralmente o homem é o sujeito da ação); “comer” ou qualquer sinônimo não é adequado para designar o estupro. Quer dizer, não existe “”comer alguém contra a vontade da pessoa””, isso não é sexo, é estupro. Na nossa sociedade, as pessoas – não digo que seja o seu caso, muito ao contrário, seu nível de consciência é surpreendente – acham que estupro é um tipo de relação sexual, com isso naturalizam-no. Seria melhor associar sexo com prazer e estupro com aberração, não estupro com um tipo de sexo, tornando-o “aceitável”.

    • 05/10/2011 19:45

      Thata,
      boa observação.

      Realmente utilizei o verbo “comer” no título para dialogar com o tweet do Rafinha Bastos.

      Nesse ponto do post, tentei jogar com duas palavras (um tanto chulas, confesso) que possuem conotação sexual: dar e comer.Escolhi tais vocábulos para indicar que ambos são agentes, que não há nenhuma relação de submissão e passividade. Nesse caso, são as mulheres que querem “dar”, evitando assim o uso de “serem comida”.

      Puxa, acho que estou exagerando..

      De qualquer forma, obrigado pelo comentário!

      Abração

      • 06/10/2011 12:53

        Não, Marcelo, não está exagerando não!
        Entendo que a mudança social envolve a questão de transformarmos a linguagem, embora nos pareça, a cada palavra ou expressão, um passo muito pequeno. O processo acontece no longo prazo, mas se não começarmos… Já ouvi inclusive mulheres (moças) utilizando “comer” em vez de “dar”.
        Costumo refletir muito ao “manipular” as palavras/expressões que implicam em opressão às minorias (como agente político e como profissional – professora).
        Continuemos!
        Grande abraço

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